O Diabo Veste Prada 2 vai além da nostalgia e faz crítica certeira à era do consumo rápido
1 de maio de 2026
O Diabo Veste Prada 2 tinha tudo para ser apenas mais uma continuação movida pela nostalgia, dessas feitas para arrancar suspiros fáceis de quem ama o original. Mas, para minha surpresa, o filme encontra uma razão genuína para existir. Ainda que mantenha algumas semelhanças com a estrutura do longa de 2006, a sequência olha para o presente, e talvez seja justamente aí que ela funcione tão bem. O glamour continua intacto, os figurinos seguem impecáveis e os diálogos ainda têm o veneno irresistível de Miranda Priestly, mas agora existe uma camada melancólica por trás de todo aquele luxo.
Duas décadas depois, a Runway já não ocupa o mesmo lugar de poder. A revista impressa virou produto digital, o jornalismo perdeu espaço para métricas, cortes de orçamento e conteúdos rápidos, e até a moda parece ter sido engolida pela lógica da velocidade. O filme entende perfeitamente esse cenário e transforma a decadência desse universo em seu principal conflito. Há algo de muito simbólico em ver Miranda, antes praticamente intocável, obrigada a negociar espaço em um mundo que já não reverencia autoridade da mesma maneira.
Meryl Streep continua gigantesca no papel. O mais interessante é perceber como ela suaviza Miranda sem descaracterizá-la. A personagem segue fria, controladora e deliciosamente afiada, mas agora deixa escapar pequenas rachaduras emocionais que aproximam o público dela. Streep sabe exatamente quando endurecer o olhar e quando baixar a guarda, e isso dá ao filme alguns de seus momentos mais sinceros.
Anne Hathaway também retorna muito confortável como Andy Sachs. A personagem amadureceu, construiu carreira, ganhou experiência, mas ainda carrega aquele nervosismo quase automático diante de Miranda, e isso é ótimo porque mantém viva a essência da relação entre as duas. O filme acerta ao transformar Andy em uma jornalista que ainda acredita na importância do trabalho bem feito, mesmo em um mercado esmagado pela pressa, pelos algoritmos e pela superficialidade digital. Existe algo de esperançoso na forma como ela insiste em preservar propósito em um ambiente cada vez mais interessado apenas em performance.

Stanley Tucci, como sempre, rouba cenas com facilidade. Nigel continua sendo o coração emocional daquela redação, trazendo humanidade para um universo frequentemente movido por ego e aparência. Já Emily Blunt, embora continue excelente no timing cômico, acaba prejudicada por um roteiro que nem sempre sabe o que fazer com Emily Charlton. A personagem parece entrar e sair da narrativa sem o desenvolvimento que merecia, o que se torna um pouco frustrante considerando o quanto ela foi importante no primeiro filme.
E talvez esse seja o maior problema de ‘O Diabo Veste Prada 2’: ele funciona melhor quando desacelera para refletir sobre transformação, envelhecimento e sobrevivência do que quando tenta atender às exigências do entretenimento moderno. Em alguns momentos, o roteiro parece ansioso demais para explicar tudo, antecipando conflitos e resoluções por meio de diálogos expositivos. Há também uma sensação constante de pressa na montagem, como se o filme tivesse medo de perder a atenção de um público acostumado a consumir vídeos de poucos segundos. Essa contradição acaba sendo curiosamente coerente com o próprio tema da obra. O longa critica a lógica que reduz tudo a consumo rápido, mas, visualmente, às vezes cai exatamente nessa armadilha.
Ainda assim, o saldo é muito positivo. O filme entende que nostalgia sozinha não sustenta uma continuação e, por isso, tenta discutir o que acontece quando um mundo antes inalcançável começa a perder relevância. Existe tristeza nisso, mas também existe resistência. “O Diabo Veste Prada 2” fala sobre moda, jornalismo, redes sociais e até inteligência artificial, mas no fundo está falando sobre identidade, sobre o que acontece quando tudo precisa ser otimizado, acelerado e transformado em produto.
No fim, a grande força do filme está justamente em reunir diversão e comentário social sem perder o charme. É reconfortante reencontrar esses personagens, perceber como mudaram e, ao mesmo tempo, reconhecer exatamente quem eles continuam sendo. Entre fanservices, looks impecáveis e críticas ao esvaziamento cultural do presente, “O Diabo Veste Prada 2” consegue algo raro: justificar seu retorno sem parecer apenas uma lembrança requentada do passado.


